10 de agosto de 2013

O pênalti de Seu Emengardio

Eu já contei a história de Seu Emengardio e o encontro duplo que ele teve com Rivelino. Esta é apenas uma das várias que ele contava pelo mundo afora. Quando trabalhava em sua barbearia, na rua, na igreja, no mercado, em casa, onde os filhos que não agüentam mais ouvir, para os netos e é claro, para as visitas. Seu Emengardio se gabava de ser o melhor batedor de pênaltis do mundo. Ele ficava indignado com jogador profissional que desperdiçava uma cobrança.

Tinha uma técnica infalível. Bater forte e rasteiro no canto. Nenhum goleiro pegava. Até aí nenhum segredo, mas eu falava que às vezes em uma final de campeonato um jogador sob pressão ou cansado erra e pode acontecer com qualquer um. Ele me dizia que não tinha conversa. Profissional, o mínimo que tem que fazer, é bater pênalti bem batido. Ele dizia que não errava então como jogador podia dar-se ao luxo?

Há uns 23 anos, eu com sete estava lá para confirmar, Seu Emengardio como sempre estava contando vantagem no clube após uma pelada. Irritando todo mundo com aquela ladainha de sempre. ”Porque jogador não pode perder pênalti. Nenhum goleiro defende um pênalti que eu cobro e ainda aviso o canto que vou bater” e assim vai. Até que o Tiquinho, o goleiro que jogava no time dele falou:

“Eu posso defender um pênalti seu”

Silêncio total no recinto. Todos estavam acostumados à falação de Seu Emengárdio, mas toleravam por que ele era muito mais velho que eles e, afinal eles todos na faixa de 30 anos e ele com 63, devia ter problemas em aceitar que estava ficando velho. Então ignoravam. Mas Tiquinho era um garoto de 20 anos de idade, com aquele ar arrogante típico dos jovens, pavio curto e falava que era o melhor goleiro da região. Ele realmente defendia algumas penalidades.

Desafio feito. Todos olharam para Seu Emengárdio já imaginando uma afinada por parte do velho. Que nada. Seu rosto estava impassível. Se estava com medo, não demonstrava, pelo contrário. Os seus olhos verdes frios, olhando profundamente para Tiquinho quando disse sim, deixaram seu oponente apreensivo. Sem dizer mais nada, Seu Emengardio colocou a bola em baixo do braço e dirigiu-se ao centro do gramado.

Olhei para Tiquinho e posso jurar que vi medo no seu rosto. Tive impressão de o ver engolindo seco e uma gota de suor escorrendo pela lateral do seu rosto. Seu ar de arrogância tinha ido embora. Todos já se dirigiam em seguida para o gramado e eu também fui, olhei para trás e vi Tiquinho calçando suas luvas. Tenho certeza que se arrependeu de ter proposto o desafio.

De qualquer forma, quando entrou no gramado ele retomou a expressão de desafio. Seu Emengardio mandou escolher qual gol seria. Tiquinho quis do lado leste, pois o sol, que estava forte naquela manhã de domingo, ficaria contra Emengardio. Claro, ele tem que ter alguma vantagem, pois sempre é mais fácil a bola entrar que o goleiro defender. Depois Emengardio falou:

“Vou bater do seu lado esquerdo”

Seu Emengardio colocou a bola na marca do cal. Deu dois passos curtos para trás em linha reta. Coçou o bigode, colocou as mãos na cintura, olhou fundo nos olhos de Tiquinho. Este evitou o olhar, claro era arrogante, mas não burro. Limpou o suor da testa com o dorso das mãos, posicionou-se no meio do gol na tradicional pose de goleiro e limitou-se a encarar a bola.

Seu Emengardio desceu os olhos, que estavam cravados em Tiquinho, para a bola. Todos seguraram a respiração, então Tiquinho fez algo inusitado. Atirou-se no chão para seu lado esquerdo ficando com o corpo todo esticado, bloqueando totalmente aquele canto. Seu Emengárdio, sem tirar os olhos da bola, foi para a batida e chutou no canto oposto onde estava o goleiro. Esta foi repousar mansamente no fundo da rede.

Do meio do gramado todos começaram a rir de Tiquinho que estava caído de um lado e a bola do outro. Ele que sempre se orgulhava de cair no canto certo. Ele sabia. Todos que entendem um pouco de futebol sabem. Deve-se esperar o batedor chutar para ver de que lado vai à bola. Cedo ou tarde algum jogador chuta mais fraco, chuta no meio do gol ou então a meia altura, que facilita mais para o goleiro. Mas a cobiça de defender o pênalti sabendo onde ia ser batido fê-lo esquecer dessa regra.

Tiquinho explodindo de raiva, com o rosto vermelho levantou e foi tirar satisfação:

“Não é justo. Você falou que ia bater no lado esquerdo.”

“Sim, é verdade, mas você não falou que ia ficar deitado lá. Que tipo de goleiro pula no canto antes do jogador bater?”

Virou as costas para o goleiro e foi para o vestiário. O derrotado arrancou as luvas, jogou no gramado e saiu resmungando. Os outros jogadores estavam com um ar de admiração. Os olhos acompanhavam seu Emengardio indo para o vestiário como um guerreiro deixando a arena. A partir dali passaram a respeitá-lo mais. Ele contava muita vantagem? Inventava muita lorota? Falava demais? Sim, porém, possuía algo que faltava a eles. Experiência.








Guilherme Palma

*Publicado originalmente em janeiro de 2012.

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