21 de agosto de 2013

Jardim Suspenso

Não é uma referência ao Jardim Suspenso que o famigerado rei da Babilônia, Nabucodonosor mandou fazer para sua inconsolável esposa Amitis, o qual consta das sete maravilhas do mundo antigo. E sim sobre uma trepadeira no meu quintal.

A planta em questão é uma Lágrima de Cristo. Ela fica entrelaçada em uma pequena escada de madeira apoiada no canto da parede. Mas a escada não é muito alta, então logo ela cresce e começa a pender ficando toda desgrenhada. Pensei:

- Deixa comigo. Vou montar um pergolado de madeira

Santa marcenaria Batman. Não é uma decisão precipitada? É o que teria dito o menino prodígio. Mas eu já tinha decidido, afinal de contas eu deveria fazer mais coisas além de trocar lâmpadas e abrir tampas de conservas. Tinha ferramentas e isso poderia ser um trabalho relaxante, apesar de um tanto exaustivo. Eu só não imaginava o quanto.

Inicialmente imaginava comprar algumas ripas finas de madeira, fazer um pequeno estrado e suspender no muro para deixar a trepadeira crescer sobre ele. Mas o vendedor da madeireira falou que podia não agüentar, por mais que fosse leve, teria de ser madeira de deck se não apodrecia de ficar no sol e na chuva. Acabei saindo de lá com dez tabuas e mais três sarrafos de 3 metros para fazer apoio para as tabuas.

Ele havia me dito para não usar pregos grandes para não rachar a madeira. Passei no Zinho e comprei pregos pequenos e quatro cantoneiras para sustentar a armação. Cheguei em casa doido para começar o serviço, era um sábado a tarde. Acomodei o João Guilherme confortavelmente no bebe conforto e falei:

- Vamos começar filho.

Ele deu uma franzida na sobrancelha e eu comecei a serrar os sarrafos. Parecia que não ia acabar nunca. O serviço levou aproximadamente umas duas horas ao custo de varias bolhas nas mãos e uma dor nas costas terrível. Nada que um dorflex não resolva. Comecei a configurar as madeiras no chão. Com o martelo e pregos à mão comecei a pregar. Um urro. Na primeira martelada não acertei o prego.

Cheguei a ficar sem ar. Olhei para o João Guilherme e ele estava rindo. Depois de alguns minutos, quando minha cor voltou ao normal, com exceção do dedo que ficou roxo, eu pude recomeçar. Daí para frente transcorreu tudo mais ou menos bem. Martelei mais algumas vezes meu dedo, mas ele já estava anestesiado. Meia hora depois e algumas farpas de madeira na mão fui erguer aquele trambolho. Soltou um monte de tabuas quando ergui. Os pregos eram curtos demais.

Respirei fundo para não gritar novamente. Coloquei o João Guilherme na cadeirinha do carro e fui ao Zinho para comprar os pregos de maior calibre e pensei. Agora vai. Não foi. Quando voltei eu tinha que dar banho no João, preparar a mamadeira e colocar para dormir. Esse processo levou umas duas horas. Aí escureceu e eu já estava todo arrebentado. Tive que adiar para semana que vem o termino da obra.

A semana passou rápido. Peguei o João Guilherme, coloquei-o no bebe conforto e falei:

- Vamos continuar filho?

Dessa vez ele não franziu as sobrancelhas, apenas abriu um sorriso enorme. Mas será o Benedito que esse menino, no alto de seus 100 dias de vida, estava me tirando um sarro? Bom, comecei a pregar as tabuas. Dessa vez deu certo, depois de algumas marteladas no dedo e alguns gritos, ficou bem fixo. Hora de suspender no muro para marcar onde teria que furar a parede para fixar as cantoneiras.

Deu um trabalho medonho. A armação era pesada e não tinha ninguém para me ajudar. Subi na escada carregando aquilo e na hora de colocar sobre o muro o peso arqueou minhas costas para trás e minha vida inteira passou diante dos meus olhos, veio uma recordação de quando tinha três anos de idade e meu pai se disfarçou de Papai Noel e eu fiquei chorando de medo. Mas por sorte consegui não cair da escada e num esforço sobre humano jogar a armação em cima do muro.

Suando em bicas marquei na parede o local para furar e ia começar quando me dei conta que não tinha comprado os parafusos e buchas. Gritei histericamente por uns dois minutos. Coloquei o João Guilherme no carro e lá fui eu no Zinho comprar os parafusos. Liguei a furadeira na tomada, fui furar a parede e nada, nem sinal. Ela tinha soltado da extensão. Desta vez estava calmo. Tinha decidido que nada mais me abalaria.

Passei fita isolante em volta para não escapar mais. Quando fui furar a parede, faltou extensão. A furadeira não alcançava por dez centímetros. Já ia gritar, mas lembrei-me do João Guilherme, que me olhava com os olhos arregalados. Resmungando, coloquei-o novamente no carro e fui ao Zinho novamente. Outra vez. Pedi uma extensão de cinco metros para não ter mais erro. Ele falou para mim que se eu fosse político eu sofreria uma CPI.

- Por que Zinho?
- Por que você não entregaria nunca a obra.


O Zinho rachou o bico de dar risada, o funcionário dele deu risada, a clientela dele deu risada. Diacho ate o João Guilherme deu risada. Fui obrigado a rir também, o que me restava fazer? Voltei para casa bem sereno, liguei a furadeira na extensão, que podia dar a volta na minha casa, e comecei a perfuração. Fixei as cantoneiras, furei as tabuas. Subi a armação, agora sem esforço nenhum, em cima do muro, parafusei-a nas cantoneiras e pronto.

Desci das escadas para apreciar meu serviço. Não ficou uma obra prima de marcenaria, mas revelou que talvez eu tenha um dom latente. Todo orgulhoso olhei para o João Guilherme para ver o que ele achava, mas ele estava nos braços de Morfeu *. Dormia o sono dos justos. De qualquer forma eis o resultado do meu esforço.

Guilherme Palma

* Morfeu (palavra grega cujo significado é "aquele que forma, que molda") é o deus grego dos sonhos. Embora digam que a expressão correta deveria ser com o nome de seu pai, Hipnos que era o deus do sono.

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