7 de outubro de 2013

O prefeito e eu

O corrupto, o ladrão.

Estava tomando um café essa semana quando o atual ex-prefeito entrou na cafeteria. Falou bom dia para o atendente e de forma discreta olhou ao redor para ver se alguém o cumprimentava ou puxava assunto. Nada. Sentou ao meu lado e pediu um expresso sem açúcar. Olhou para mim e disse:

- Amargo é melhor. É mais real.

Senti uma tristeza em sua voz quando falou isso. O café tem que ser amargo como a vida? Indaguei-me. Enquanto degustava seu cafezinho ele olhava de um lado para outro. Alguns em suas conversas sem olhar para o ex-prefeito, outros concentrados em sua leitura de jornal. Ele tamborilava com as mãos no balcão olhando para o vazio.

- Prefeito? Chamei sua atenção. O senhor desde que entregou o cargo parece estar afastado da política. O que sente em relação a isso? O que senhor esperava da vida política? Foi uma pergunta sincera, sem afrontas. O rosto dele pareceu se iluminar.

- Olha meu rapaz... Como é o seu nome?
- Guilherme.
- Guilherme, do fundo do meu coração, eu sinto que não consegui realizar tudo que gostaria. As pessoas me viam como um corrupto ou um demagogo. Não sou. Eu gosto das pessoas. Gostaria de entrar em uma cafeteria que nem essa e bater um papo normal. Não sobre política somente ou com olhares desconfiados ou todo mundo agindo diferente, me julgando achando que roubei todo mundo. Eu conheço você Guilherme?

- Não creio. Quer dizer, durante a faculdade eu entrevistei o senhor, mas foi muito rápido.
- Então você é formado em jornalismo?
- Sim.
- E o que você achou do meu mandato?
- Para ser bem sincero, eu achei um pouco fraco.
- Sei. Então Guilherme, eu acho que não fui muito feliz mesmo, concordo com você, mas veja bem. Eu entreguei os cofres públicos em dia. Não desviei verbas. E teve essa Lei de Responsabilidade Fiscal que atrapalhou muito meus planos. Você sabe que a cidade vem de administrações péssimas e com muitos roubos, não é?

- É verdade.
- Mas eu me esforcei Guilherme. As pessoas não sabem como é difícil. Eles acham que prefeito manda em tudo. Mas para chegar lá nós acabamos ficando de marionete na mão de pessoas poderosas. Temos que aceitar imposições, fazer vista grossa. Eu queria fazer muito pela cidade. Escolas, hospitais, viadutos, trazer indústrias. Você não tem nenhum gravador aí, tem Guilherme?

- Não senhor. Não estou trabalhando com jornalismo.
- Então Guilherme. Eu não queria me filiar ao PT no início, mas era um partido em crescimento, com mais garantias de voto. E algumas pessoas que estão há muito tempo no partido me ensinaram muitas coisas sobre o verdadeiro socialismo.
- Mas o socialismo não é um sistema que fracassou?

- O socialismo de ditadura, com coerção falhou. Aquele que fere a liberdade. Eu tinha idéias de socialismo vinculado a uma democracia. Dar atenção para saúde, educação, para o pobre em geral. Mas ser empreendedor, com visão de crescimento. Estimular o empresariado, e a industrialização privada. Não cercear a liberdade de expressão e de imprensa. Isso é possível. Eu sei que é.

- Mas não com essa mentalidade do brasileiro de receber esmola e se preocupar com quem vence ou perde o Big Brother.
- Exatamente Guilherme. Um dia isso vai acabar e eu sei que o Brasil vai crescer como deve, mas até lá o padecimento será grande.
- Eu concordo com o senhor prefeito. E digo que também tinha uma imagem muito diferente do senhor.

- Eu imagino, mas não o culpo.
- Se um dia o senhor voltar para a política eu votarei em você. Com convicção e não apenas para eliminar candidatos.
- Obrigado. Significa muito para mim.

Despedi-me com um aperto de mão e um sincero desejo de felicidades, olhando nos olhos dele. Pareciam estar marejados. Paguei meu café e sai. Do lado de fora dei mais uma olhada e de forma discreta o ex-prefeito olhou ao redor para ver se alguém o cumprimentava ou puxava assunto. Nada.

O corrupto, o ladrão.

Guilherme Palma

2 comentários:

  1. O amigo é jornalista, e gravou a conversa, ou foi apenas um escrito que poderia ser real e veio para as linhas?
    De qualquer forma, muito bem escrito.
    Não voltei a comentar, mas hoje ao entrar em meus blogs, no blog2, percebi que eles tinham sumido, e parte do final da tarde colocando os que tinha ainda na cabeça. Abraços!

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    Respostas
    1. Eu ja fui jornalista. Na verdade essa conversa é ficticia e já tinha publicado ela ha um bom tempo, apenas repostei para nao ficar sem atualizacao o blog.
      Nao tenho pblicado mais, mas foi bom rever o colega.
      abraço.

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