Estava tomando um café numa cafeteria do centro quando o ex-prefeito entrou.
Cumprimentou o atendente com um sorriso discreto e, antes de pedir, percorreu o salão com os olhos. Não parecia procurar uma mesa. Parecia procurar alguém que o reconhecesse.
Ninguém o fez. Sentou-se ao meu lado e pediu:
— Um expresso. Sem açúcar.
O atendente confirmou o pedido.
— Sem açúcar?
— Amargo é melhor. É mais real.
Fiquei pensando naquela frase enquanto ele mexia distraidamente na xícara vazia. Havia um silêncio estranho ao redor dele. As pessoas conversavam normalmente, liam jornais, mexiam no celular, mas ninguém dirigia uma palavra ao homem que, poucos meses antes, aparecia diariamente nos noticiários.
Quando o café chegou, resolvi puxar conversa.
— Prefeito...
Ele virou o rosto.
— Ex-prefeito.
Sorriu de leve.
— Mas pode falar.
— Como tem sido essa vida longe da prefeitura?
Ele demorou alguns segundos antes de responder.
— Silenciosa.
Tomou um gole do café.
— E, às vezes, solitária.
Olhou novamente para o salão.
— As pessoas não sabem mais conversar comigo. Quando eu era prefeito, todos tinham um pedido, uma reclamação ou um elogio. Hoje parece que têm medo de dizer até bom dia.
— Talvez tenham receio de incomodar.
Ele sorriu.
— Ou talvez achem que eu roubei a cidade inteira.
Não havia ironia na voz.
Apenas cansaço.
— O senhor sente que foi julgado?
— Todos nós somos.
Fez uma pausa.
— A diferença é que algumas profissões transformam o julgamento em rotina.
Observei seu rosto por alguns instantes.
Parecia mais velho do que eu lembrava.
— O que mais incomoda?
Ele respondeu sem pensar.
— Ser reduzido a uma palavra.
— Qual?
— Corrupto.
O silêncio voltou.
Depois perguntei:
— O senhor acha que fez um bom mandato?
Ele passou o dedo pela borda da xícara.
— Não.
A resposta me surpreendeu.
— Fiz coisas das quais me orgulho e outras que faria diferente. Achei que conseguiria realizar muito mais.
Respirou fundo.
— Quando a gente está de fora, imagina que prefeito manda em tudo. Lá dentro você percebe que quase nada depende só de você.
Olhei para ele.
— Mas muita gente diria que isso parece desculpa.
Ele concordou.
— Talvez seja o que pareça.
Sorriu.
— E talvez alguns políticos realmente usem isso como desculpa. Mas a máquina pública é muito mais complicada do que parece.
Ficamos alguns instantes em silêncio.
Resolvi perguntar algo que sempre tive curiosidade.
— Posso fazer uma pergunta um pouco pessoal?
— Claro.
— O senhor entrou para a política imaginando que seria assim?
Ele riu pela primeira vez.
— Não.
Olhou novamente para a xícara.
— Eu entrei porque acreditava que podia melhorar a cidade. Com o tempo você descobre que governar exige negociar o tempo todo. Algumas negociações são legítimas. Outras cobram um preço que você nem percebe que está pagando.
A frase ficou ecoando na minha cabeça.
Paguei meu café.
Levantei-me.
— Foi um prazer conversar com o senhor.
Ele estendeu a mão.
— Obrigado por conversar comigo como se eu ainda fosse uma pessoa.
Apertei sua mão e desejei felicidades.
Enquanto caminhava para fora da cafeteria, olhei uma última vez através da vitrine.
O ex-prefeito permaneceu sentado diante da xícara já vazia.
De forma discreta, olhou ao redor para ver se alguém o cumprimentava ou puxava assunto.
Ninguém.
Guilherme Palma

O amigo é jornalista, e gravou a conversa, ou foi apenas um escrito que poderia ser real e veio para as linhas?
ResponderExcluirDe qualquer forma, muito bem escrito.
Não voltei a comentar, mas hoje ao entrar em meus blogs, no blog2, percebi que eles tinham sumido, e parte do final da tarde colocando os que tinha ainda na cabeça. Abraços!
Eu ja fui jornalista. Na verdade essa conversa é ficticia e já tinha publicado ela ha um bom tempo, apenas repostei para nao ficar sem atualizacao o blog.
ExcluirNao tenho pblicado mais, mas foi bom rever o colega.
abraço.