1 de outubro de 2012

O velório, os comentários e a perola

Ano passado estava no velório do pai de um amigo meu. Não tem muito que descrever em um ambiente desses. Todo mundo divido em grupinhos, conversando aos sussurros. Coroas de flores na entrada, o livro para colher assinaturas, algumas senhoras tomando cafezinho e comendo bolachas. E as crianças correndo para la e para ca, indiferentes ao acontecido. A esposa chorava inconsolável.

Meu amigo estava na frente recepcionando os convidados. Entre um cumprimento e outro ia ouvindo: “seu pai era gente fina”, “um grande homem”, “nós éramos grandes amigos”, “pelo menos foi dormindo”, “agora descansou” e assim vai. Essa ladainha de sempre, quando o melhor era apenas cumprimentar e ficar de boca fechada.


Nessa hora chegou um primo do meu amigo. Um hippie de uns 45 anos de idade. Sandálias nos pés, bermuda, camisa regata, uma tatuagem do Bob Marley no braço e um cabelo rastafári. Todo mundo já olhou meio ressabiado. “Será que esta chapado?” perguntou um. “Acho que vai dar vexame”, opinou outro. “Esse não endireita mais”, profetizava outra.

Alheio a esses comentários ele veio cumprimentar seu primo - meu amigo. Ficou em silencio um instante, olhou para o chão depois para ele, com um olhar de consolo, suspirou como se estivesse preparando um discurso e disse:

- Foda, hein!

Virou as costas e foi embora.

Gênio

Guilherme Palma 
*Publicado originalmente em 13/04/2009

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