25 de janeiro de 2013

Gripe A

Outro dia estava na fila do banco quando encontrei um amigo e começamos um bate papo animado. Quando entramos no assunto da gripe suína, coincidentemente o vigia retirou a mascara para trocar. Nessa hora não agüentei, pisquei para meu amigo e simulei um espirro em cima do guarda. 

O homem recuou assustado para trás e derrubou uma senhora que estava sentada em uma cadeira. Umas pessoas que estavam na fila saíram correndo e gritando, outros olharam feio para mim, cobrindo o nariz e a boca. Eu olhei aquela cena toda atordoado. Era surreal. Fui até a senhora para ajudá-la a se levantar quando de repente o outro vigia pegou meu braço torcendo-o nas minhas costas e me arremessou no chão. Colocou à força uma mascara no meu rosto e pediu para os outros se afastarem. 

Quando enfim consegui explicar que estava apenas brincando, todos dentro da agência ficaram possessos. Começaram a me xingar, alguns inclusive driblaram o vigia e acertaram alguns chutes. O gerente ligou para a polícia que me levou para a delegacia. Disseram que o que eu tinha feito era perturbação da ordem, criação de tumulto e pânico. 

 No final da história fui fichado na polícia com impressão digital, foto de frente e perfil, tive que pagar uma cesta básica e ganhei duas costelas quebradas. Fora a vergonha. Eu posso afirmar categoricamente que fui a primeira vítima direta da gripe. Vítima da paranóia. Só fica uma pergunta: Eu que criei o pânico?

Guilherme Palma
* Publicado originalmente em 28/08/2009

8 de janeiro de 2013

O encontrão e a boca maior que o cerébro

Há alguns anos, em minha mais tenra adolescência estávamos em um bar eu e meus amigos. Todos os domingos a noite tocava uma banda neste bar e como tinha um espaço bem amplo na frente o lugar ficava cheio. De uma maneira que só se andava esbarrando nas pessoas. Para ir de um lado para o outro só com muito custo, então o melhor era achar um lugar para ficar tomando uma cerveja e não se mexer.

Mas enfim, tínhamos que procurar um local onde houvesse maior concentração feminina. E eis que andando em minha direção veio um cara de uns dois metros de altura e uma musculatura tipo a do Arnold Schwarzenegger, aquele simpático ex-ator e atual governador do estado da Califórnia - EUA. Eu reconheci a peça. Era um professor de Jiu-Jitsu.

Ele vinha abrindo caminho entre os transeuntes como se estivesse na casa dele. Quando passou por mim, fui arremessado uns dois metros para o lado empurrando outros caras que me olharam feio e fui obrigado a pedir desculpas. O corno fingiu que nem viu. E como tenho a língua maior que o cérebro comentei com meu amigo:

- Que cara otário. Só porque ele é fortão e professor de Jiu-Jitsu pensa que pode apavorar desse jeito.

Mas a desgraça era que o cara estava cercado de discípulos e um deles que vinha vindo mais atrás aparentemente ouviu alguma coisa. Já deu para imaginar? Estou lá conversando com meus amigos quando de repente sinto alguém puxando meu ombro. Quando olho para trás, adivinhe quem era? O dito cujo. E eu notei que a semelhança dele com Schwarzenegger ia além do porte físico. A fúria que ele tinha nos olhos me lembrou o Exterminador do Futuro pronto para dar um tiro de escopeta. Quando ele abriu a boca para falar comigo o tom era o mesmo de I'll be back:

- Meu chegado escutou você falar que eu sou otário.

Parecia que a banda tinha parado de tocar e todos tinham parado de falar. Olhei ao redor dele. Tinha um seis caras rindo. Dava para notar nos olhos deles que queriam ver alguns membros meus separados do corpo. Todos também uma parede e eu no alto dos meus 1,73m pensei: Hoje vou apanhar que nem gente grande. Mas eis que no momento em que meus joelhos começavam a bater um contra o outro o meu cérebro enfim resolveu cooperar e agiu rápido. Respondi quase que de imediato:

- Seu amigo entendeu errado. Eu falei que você é proprietário. Você não é dono da academia de Jiu-Jitsu? Ele assentiu com a cabeça e eu continuei. Então, eu tava falando para ele que pensava em entrar na sua academia e que você era o lutador mais foda da cidade.

Poucos segundos de silêncio e tensão no ar. Os amigos dele esperando para ver qual era sua reação. Para minha sorte eis que ele esboça um sorriso, da um tapa no meu ombro e pede desculpas pelo mau entendido. Já me abraça e me leva até o bar. Nós ficamos conversando e tomando cerveja pelo resto da noite. Ele pagou todas. Me deu seu cartão e falou que me esperaria na academia. Os amigos dele ficaram incrédulos e putos da cara comigo.
Como eu não queria fazer Jiu-Jitsu coisa nenhuma é óbvio que não passei na academia dele. Aliás, eu fazia questão de não passar em frente dela. Coincidentemente eu enjoei daquele bar e parei de freqüentar por um bom tempo. 
Guilherme Palma 
*Publicado originalmente em 27/07/2009