29 de outubro de 2012

Um fio de esperança



O jovem casal passava por dificuldades financeiras. Ele batia perna o dia inteiro atrás de emprego, sempre com o caderno de classificados debaixo do braço. Ela lavando roupas a preços irrisórios. E estava cada vez mais difícil arrumar clientes, pois a vizinhança era de classe média e nesses tempos de crise não podiam dar-se ao luxo de terem uma lavadeira. Queriam muito ter um filho, mas não ousavam colocar uma criança no mundo para passar fome.

Depois de percorrer a cidade a manhã inteira atrás de emprego, o marido chegou trazendo um saco de maçãs. A esposa perguntou o porquê de gastar dinheiro com aquelas maçãs. Ele explicou que o feirante estava sem o menino entregador, que tirou um dia de folga devido a um resfriado. Então ele fez algumas entregas para o feirante, que retribuiu com o saco de maçãs e alguns centavos. Não era muita coisa, mas seria o suficiente para alguns pães e um saco de leite.

A tarde saiu para as ruas e voltou com um sorriso pouco habitual, mais disposto do que o normal. Ele tinha conseguido alguns trocados lavando os carros dos funcionários do Fórum. Um amigo que era promotor conseguiu isso para ele. E mais; outro conhecido seu que passou por ali viu a cena e decidiu contratá-lo para trabalhar em seu lava - rápido.

A esposa não se conteve de lagrimas e correu se atirando nos braços do marido para abraçá-lo, tentando inutilmente conter as lagrimas que escorriam pelo seu rosto. Ele falou para ela:

- Nada de choro. Hoje é dia de alegria. Só quero ver sorrisos.

Ele sacou uma flor e deu para a esposa. Ainda bem que ela não perguntou onde ele tinha conseguido aquela flor. Havia pego de um jardim da praça, um guarda viu e saiu correndo atrás dele por toda a cidade. Mas no final das contas correu tudo bem.

- Agora quero que você tome um banho, passe um perfume e coloque seu melhor vestido. Disse ele.
- Mas por quê? Questionou-o.
- Oras, por que nós vamos comemorar. Vamos jantar fora.
- Mas comemorar o quê? Você ainda não ganhou dinheiro, não sabe se vai dar certo.
- Hoje é um dia especial, não é só por causa do emprego.
- O que mais que tem hoje?
- Depois te falo. Vá tomar banho.


Ela caprichou no visual. Passou perfume, fez um penteado, vestido florido, laço no cabelo. Ele também não ficou nada mal. Colocou seu melhor sapato, mesmo porque só tinha um. Pôs uma calça social e sua camisa de seda. E saíram para a rua.
Ele a levou ao melhor cachorro quente da cidade. Pediram dois e dividiram uma soda. Como fazia tempo que não comia tão bem, ele devorou em um minuto seu lanche. Ela ainda nem estava na metade quando viu que seu marido ainda estava com fome, mas não ousaria pedir outro devido ao preço. Ela ofereceu o dela:

- Pegue querido, termine de comer o meu.
- De jeito nenhum querida, esse é seu.
- Aceite, eu comi umas duas maçãs no final da tarde e estou bem cheia já.
Disse ela mentindo.

Como sua barriga roncava ainda, ele aceitou meio envergonhado, com o rosto corado. Ela sorriu com a maior sinceridade já demonstrada na face da Terra, satisfeita por ele ter aceitado e acariciou sua cabeça. Daí perguntou:

- Então, não vai me dizer que dia especial é hoje?

Depois que terminou de engolir o ultimo pedaço de lanche, tomou o resto da soda, olhou nos olhos dela, abriu o maior sorriso do mundo, carimbado com um tomate e disse:

- Feliz aniversário de casamento.

Guilherme Palma
*Publicado originalmente em 28/05/2009

6 de outubro de 2012

Gerundio

Em uma empresa de telemarketing qualquer...

AVISO AOS FUNCIONÁRIOS:

Primeiro mandamento do CALL CENTER:


Eu estarei gerundiando
Tu estarás gerundiando
Ele estará gerundiando

Nós estaremos gerundiando
Vós estareis gerundiando
Eles estarão gerundiando
 Guilherme Palma

*Publicado originalmente em 26/03/2009

1 de outubro de 2012

O velório, os comentários e a perola

Ano passado estava no velório do pai de um amigo meu. Não tem muito que descrever em um ambiente desses. Todo mundo divido em grupinhos, conversando aos sussurros. Coroas de flores na entrada, o livro para colher assinaturas, algumas senhoras tomando cafezinho e comendo bolachas. E as crianças correndo para la e para ca, indiferentes ao acontecido. A esposa chorava inconsolável.

Meu amigo estava na frente recepcionando os convidados. Entre um cumprimento e outro ia ouvindo: “seu pai era gente fina”, “um grande homem”, “nós éramos grandes amigos”, “pelo menos foi dormindo”, “agora descansou” e assim vai. Essa ladainha de sempre, quando o melhor era apenas cumprimentar e ficar de boca fechada.


Nessa hora chegou um primo do meu amigo. Um hippie de uns 45 anos de idade. Sandálias nos pés, bermuda, camisa regata, uma tatuagem do Bob Marley no braço e um cabelo rastafári. Todo mundo já olhou meio ressabiado. “Será que esta chapado?” perguntou um. “Acho que vai dar vexame”, opinou outro. “Esse não endireita mais”, profetizava outra.

Alheio a esses comentários ele veio cumprimentar seu primo - meu amigo. Ficou em silencio um instante, olhou para o chão depois para ele, com um olhar de consolo, suspirou como se estivesse preparando um discurso e disse:

- Foda, hein!

Virou as costas e foi embora.

Gênio

Guilherme Palma 
*Publicado originalmente em 13/04/2009