28 de setembro de 2012

Rivelino e Seu Emengardio



Seu Emengardio veio de Minas Gerais, na década de 40 e se tornou barbeiro aqui em Londrina - Paraná, na Galeria Centro Comercial. Contador de histórias e de vantagem. No seu salão era rei. Dava lições de moral e de vida em médicos, juízes, advogados, árbitros e jogadores de futebol, sargentos, generais, padres e até bispos. E como todo mineiro que se preza, é teimoso.

Zagueiro de primeira linha. Não era craque, mas era muito vigoroso. Não dava mole para atacante cheio de firula. E sabia muito bem todos os fundamentos. Tocava a bola, sabia usar as duas pernas, cabeceava e chutava para gol.

Tinha uma técnica de fazer gols que segundo ele, ninguém fazia. Sim, era zagueiro, mas fazia os seus de vez em quando. Recebia a bola dentro da área adversária, de costas para o gol. E todos olhavam aquele marcador truculento dominando e esperavam que fizesse o pivô para outro jogador chegar chutando ou desengonçadamente tentasse virar e bater. Nem uma nem outra. Ele de forma seca e rápida dava de calcanhar sem sequer olhar para a meta. Nem zagueiro, nem goleiro viam o que tinham acontecido até que a bola tivesse entrado. E como se orgulhava dessa técnica que havia criado.

Mas era bom mesmo em dar ‘pau’ em atacante e jogar bola pro mato. Gostavam dele no time devido a isso. As melhores histórias vinham justamente do mundo da bola. A mais fantástica delas é o seu encontro com Rivelino.

Há muitos anos, um jovem jogador em inicio de carreira pelo time do Corinthians que atendia pelo nome de Rivelino esteve aqui em Londrina. Por que veio não sei. Era um amistoso ou veio acompanhar alguém. Sabe-se la o motivo. O fato é que ele esteve aqui mesmo.

Seu Emengardio andando pelo centro da cidade viu Rivelino passeando. Claro que o abordou. E falou que (ele, Seu Emengardio) era um grande jogador, sabia fazer gol de calcanhar como ninguém. E assim foi, contando vantagem como se ele fosse o profissional e Riva o amador.

La pelas tantas, ele virou para Rivelino e falou:

- Você é muito bom de bola e uma das maiores promessas, mas tem que aprender a chutar com as duas pernas e não somente com a esquerda.

Então Seu Emengardio deu uma aulinha para Rivelino.

- Você pega a bola e se posiciona de frente para uma parede a um metro de distância. E fica tocando a bola na parede com a perna direita. Faça isso uns 5 minutos por dia. Vai ver como daqui a uns dois meses já estará chutando e tocando com a direita.

Rivelino, muito cordial agradeceu a dica e se despediu. O mineiro foi correndo contar para os colegas do salão. Falou na cabeça deles sobre isso durante meses.

Passado alguns anos, Rivelino jogava então pelo Fluminense. Já consagrado com títulos, como tricampeão do mundo pela seleção, esteve novamente para estas bandas. Não sei se a passeio ou por qual motivo. Mas Seu Emengardio jura que esteve aqui pela segunda vez. E não é que andando pela rua trombou novamente com ele. Oras bolas.

Depois do encontrão Rivelino olhou surpreso e falou:

- Mineiro? Não acredito que é você. Que coincidência.

E trocaram abraços, Rivelino contou histórias do mundo do futebol, da seleção, de Pelé. E Seu Emengardio também contou muitas histórias, bem mais que Rivelino. E assim foi nesse papo animado. Depois de um tempo Rivelino se despediu e ia indo embora quando se virou e falou:

- Já ia me esquecendo mineiro. Eu queria agradecer aquela dica para melhorar o chute com a perna direita.

Pronto. Foi a gota d’água para o pessoal do salão que trabalhava com Emengardio. Ele falou desse acontecimento por anos com clientes, com colegas do trabalho, com familiares, com desconhecidos que encontrava nos ônibus, nos velórios, casamentos. E conta até hoje essa história. E jura de pé junto que é verdade. E ai de quem duvidar dele. Prepare os ouvidos que a discussão vai ser acirrada.

Guilherme Palma
Obs: Eu garanto que a técnica funciona.
*Publicado originalmente em 26/01/2009

21 de setembro de 2012

Um dia daqueles


O despertador tocou as 05h45. O Sr. Pintieras levantou-se, sentou na beira da cama. Desligou o despertador e disse para si mesmo em voz baixa:


- Hoje vai ser um dia daqueles.
- O que disse querido? Perguntou sua esposa.
- Nada não querida.

Acordou seus filhos, tomou um banho. Depois foi tomar café, sempre pensativo. Deixou as crianças na escola e se dirigiu ao trabalho da esposa. No desembarque trocaram um beijo instantâneo. Ela o lembrou que no final de semana tinham que ir assistir a uma peça de teatro na escola. Ele concordou meneando a cabeça.

Quando chegou ao prédio do escritório em que trabalhava cumprimentou o porteiro com um aceno de mão. Passou pela sua secretária disse bom dia e depois em voz baixa:

- Hoje vai ser um dia daqueles.
A secretária perguntou:
- O que disse senhor?
- Nada não.

Passou a manhã conferindo relatórios, fazendo algumas ligações, montando planilhas. Na hora do almoço foi com seu chefe e o colega de trabalho almoçar em um restaurante. Conversaram sobre ações, Big Brother, futebol, sobre quem saiu na revista masculina do mês. Lembraram-no sobre a pelada no final de semana. Ele já ia concordando, mas lembrou-se que teria de ir ao teatro assistir uma peça dos filhos.

A tarde conferiu mais alguns relatórios, fez algumas ligações, montou algumas planilhas. Foi para uma reunião as 17h00. Depois de terminada a mesma, passou em sua sala, pegou sua pasta, seu paletó e apagou as luzes. Ao passar pela secretária, esta disse:

- Tenha uma boa noite Sr. Pintieras.
- Você também Zuricleide. Mande um abraço para sua mãe.

No caminho ouviu um cd dos Carpenters no carro. Chegando em casa brincou com seus filhos. Conferiu a tarefa deles. Jantaram. Foi para frente da TV com a esposa e os filhos. Degustou uma dose de whisky com gelo.

Depois de colocar as crianças na cama, sua esposa perguntou se não poderiam fazer amor. Ele dizia que estava meio cansado. Ela falou que tudo bem e fez alguns afagos nele. Ao examinar a expressão de tristeza em seu rosto, levantou-se pegou nas mãos dela. Foram para cama. Se amaram durante sete minutos.

Na hora de dormirem ela beijou-o no rosto e desejou uma boa noite. Ele devolveu o cumprimento, virou-se para o lado e disse em voz baixa:

- Amanhã vai ser um dia daqueles.
- O que disse querido?
- Nada não, querida.


Guilherme Palma 

* Publicado originalmente em 18/12/2008